“Há um princípio que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher.” Pitágoras ****
“Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um tempo, juiz e parte.” Poulain de la Barre ****
Não foi uma nem duas vezes que já me deparei sozinha ou com outras a me perguntar de onde veio tudo isso? Leia-se, de onde veio a desigualdade entre os sexos. O primeiro raciocínio veio da lógica do falo. O homem naturalmente tem o falo/pênis e fabricou a arma, o bastão que lhe conferiu poder. Logo, o poder era do falo.
Partindo desse raciocínio finalmente comecei a ler O Segundo Sexo, da filósofa Simone de Beauvoir. Por detrás de toda a complexidade e das muitas páginas, é um susto atrás de susto. Primeiro, de ver como algo escrito em 1959 cai como uma luva nos nossos dias. E em segundo, é como se ela abrisse meus olhos cada vez mais. Desde o início do livro ela ensaia a resposta que busco: quando, por que nós fomos subjugadas.
Na página 84, do volume 1. Fatos e Mitos, a resposta me veio tão óbvia e devastadora. A grande derrota feminina veio quando deixamos de arriscar nossas vidas e fomos enclausuradas no meio privado. O sexo que venceu foi aquele que mata. Aqui está o trecho, letra por letra, onde Beauvoir iluminou minhas vistas: “A maior maldição que pesa sobre a mulher é estar excluída das expedições guerreiras. Não é dando a vida, é arriscando-a que o homem se ergue acima do animal; eis por que, na humanidade, a superioridade é outorgada não ao sexo que engendra e sim ao que mata. Temos aqui a chave de todo o mistério.”
Dos tempos da caverna para cá, me pergunto: o que representa as atuais “expedições guerreiras”? Tudo o que conquistamos ou que nos cederam, como simplesmente trabalhar e estudar, tornou-se comum às mulheres. Me inquieta é enxergar onde posso ir além, quebrar limites. Porque não passa de ilusão a ideia que hoje somos livres. Ao menos, o local onde eu quero chegar eu já sei: sentir a liberdade por completo. E não a concepção masculina da coisa. Quero ser sujeito do meu próprio destino, para enfim ser feliz. E é basicamente disso que se trata o feminismo.
**** Frases impressas antes do início do texto de Simone de Beauvoir, no livro O Segundo Sexo.



